segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Influência do Neopentecostalismo no Movimento Pentecostal Clássico [2/4]


Por Nonato Souza.


“Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras” (1 Co 15.1-4; ARA; O grifo é meu).


Em continuidade ao nosso estudo sobre “a influência do neopentecostalismo no movimento pentecostal clássico”, iremos enfatizar, de forma resumida, sobre o que é o neopentecostalismo e ainda o pentecostalismo clássico.

O que é o movimento Noepentecostal?

O conhecido movimento neopentecostal no Brasil é dissidente das igrejas pentecostais tradicionais, e surgiu a partir da década de 70, multiplicando-se rapidamente devido sua proposta de dinamizar práticas litúrgicas, Cristologia, eclesiologia e ainda práticas hermenêuticas. Com o advento do neopentecostalismo, várias inovações, como o uso da mídia eletrônica e a administração empresarial das igrejas, inovações teológicas e litúrgicas que destoam em muito das práticas do pentecostalismo clássico aportaram em várias igrejas ditas tradicionais.

O teólogo pentecostal Elienai Cabral [1] observa que o neopentecostalismo é um movimento espiritual que absorveu doutrinas e falsos conceitos sobre as ações do Espírito Santo, tendo absorvido conceitos advindo de movimentos místicos sem compromisso com a Palavra de Deus, com raízes no humanismo de Finéias Quimby (1802 – 1866), pai do “Novo Pensamento”, que ensinava que a enfermidade e o sofrimento tem origem no pensamento incorreto. Foi ele o criador da doutrina da “Confissão Positiva” do qual foi discípulo William Kenyon, que desenvolveu a famigerada “Teologia da Prosperidade” e que foi professor de Keneth Hagin, um dos grandes nomes do “Movimento da Fé”.



As práticas neopentecostais estão distantes da realidade bíblica defendida pelos pentecostais clássicos. As igrejas pentecostais têm suas características básicas na doutrina do batismo no Espírito Santo com a evidência física inicial de falar em línguas (glossolalia), e atualidade dos dons espirituais. “Baseia sua crença na ‘doutrina dos apóstolos’, e nunca foi um movimento aparte, segregado ou discriminador, mas foi e ainda é um movimento espiritual dentro da igreja, dando continuidade ao movimento do Dia de Pentecostes”. [2]

O movimento neopentecostal está distante do verdadeiro pentecostalismo. Seus ensinos e práticas chamam atenção pelo desprezo que eles dão a princípios bíblicos básicos da hermenêutica e da exegese bíblica, aplicando de forma errônea textos bíblicos em benefício próprio que os leva a desenvolver um segmento esotérico, místico e sincrético, que foge em muito do verdadeiro cristianismo (Cl 2.8).

Conhecendo o pentecostalismo clássico.

No início do século 20, surge o Movimento Pentecostal, como “movimento espiritual” através de William Seymour, em Los Angeles, Califórnia. O fogo que incendiou o coração dos cristãos da Rua Azuza 312, incendiou também o coração de Daniel Berg e Gunnar Vingren que vieram para o Brasil iniciando uma nova igreja, a principio chamada Missão da Fé Apostólica, posteriormente, em 18 de junho de 1911, com 18 pessoas, deram início a Assembleia de Deus. A partir de então, a igreja tornou-se um movimento do Espírito que permanece vivo. A Assembleia de Deus é, portanto, uma igreja que representa o pentecostalismo clássico, porque mantém os sinais do pentecostes e continua aberta ao mover do Espírito.

O movimento pentecostal clássico tem sua práxis doutrinária no credo dos apóstolos. Tem a Bíblia como sua única regra de fé e prática, o que o leva a repudiar toda e qualquer ideia, conceito ou ensino que subtraia ou acrescente conceitos de fé ao que está escrito na Palavra de Deus. O pentecostalismo clássico não baseia sua fé em experiências pessoais, textos isolados da Bíblia, pelo contrário tem sua autenticidade doutrinária e fundamenta seus ensinos na Bíblia Sagrada.



O movimento pentecostal clássico tem na evangelização e proclamação do evangelho aos perdidos sua missão principal. Crer na ação poderosa do Espírito Santo como força propulsora que impulsiona a igreja a testemunhar de Cristo a toda criatura (At 1.8).

O movimento pentecostal clássico acredita que Jesus Cristo batiza os crentes com o Espírito Santo com a evidência física do falar em línguas espirituais. Não tem dúvida nenhuma em acreditar na atualidade dos dons espirituais como ação poderosa do Espírito objetivando edificar a igreja e fortalecer os crentes na fé.

O movimento pentecostal clássico é enfático quanto ao zelo doutrinário e bons costumes. O experiente teólogo pentecostal Elienai Cabral [3] comenta sobre o assunto:

A despeito de alguns exageros, não podemos fugir ao papel da igreja na sociedade no sentido de ter um comportamento social sem apelação ao mundano nem ao pietismo farisaico. Devemos manter nossos bons costumes sem transformá-los em doutrinas de salvação ou de perdição. O bom senso ético e costumes que não comprometam a fé são elementos representativos daquilo em que cremos. Por isso, não estigmatizamos costumes temporais, mas velamos pelos bons costumes que façam diferença de estilo de vida mundano.

O movimento pentecostal clássico é cristológico, porque acredita que Jesus Cristo é o ponto central da vida da igreja. Se uma igreja não tem Jesus e seus ensinos como ponto convergente de sua vida, não passa de movimento sem nexo. O seu “evangelho” é totalmente antropocêntrico, voltado para satisfação dos desejos meramente humanos. O movimento pentecostal clássico se preocupa com o homem, no sentido de levá-lo a Cristo, não de tê-lo como o centro.

Poderíamos citar mais alguns pontos sobre o movimento pentecostal clássico, vamos, porém, nos ater a estes e concluir com o que diz José Gonçalves [4] em seu livro Rastros de fogo, ao sintetizar os dez elementos constitutivos que identificam o pentecostalismo clássico:

1.   Ênfase na espiritualidade e poder na vida dos crentes, nos cultos, nos cânticos e nas pregações, expressos pela espontaneidade de falar “glória a Deus”, “aleluia” e “línguas estranhas”; busca da vida espiritual cheia do Espírito e com prática dos dons espirituais;

2.   Resistência ao sistema mundano e afastamento das coisas do mundo, expressos no rigorismo ético e nos usos e costumes;


3.   Mudança social de seus adeptos pela transformação decorrente do evangelho;

4.   Ênfase no derramamento do Espírito Santo sobre a igreja como um revestimento de poder (batismo no Espírito Santo) para a evangelização, diante da iminente volta de Jesus Cristo para arrebatar todos os salvos;

5.   Abominação do pecado e ênfase na santificação do espírito, alma e corpo;

6.   Ênfase no jejum e na oração coletiva em alta voz;

7.   Forte identificação com os pobres, os sofredores e os marginalizados da sociedade, tornando-o um movimento popular;

8.   Ênfase no sobrenatural por meio da cura divina e milagres;

9.   Ênfase no sacerdócio universal dos crentes;

10. Ênfase na centralidade da Bíblia, tendo-a como Palavra escrita de Deus sob inspiração verbal e plenária.

Continua...

Notas:

[1] Cabral, Elienai, Movimento Pentecostal. As doutrinas da nossa fé. CPAD, pg. 68;

[2] Idem, pg. 69;

[3] Ibidem, pg. 75;

[4] Gonçalves, José. Rastros de fogo, Ed. CPAD, pg. 89





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