segunda-feira, 7 de abril de 2014

A Assembleia de Deus daqui a 50 anos


Por pastor Estevam Ângelo de Souza

Estevam Ângelo de Souza (Im memória), foi pastor presidente da Assembleia de Deus em São Luis, MA, e da CEADEMA - Convenção Estadual da Assembleia de Deus no  Maranhão.


Uma palavra inicial.

Nestes dias turbulentos e corridos tive a oportunidades de dar uma olhada em alguns recortes de jornais que guardo. A maioria dos meus recortes são textos do periódico Mensageiro da Paz, jornal mensal da Assembleia de Deus no Brasil, onde tive o privilégio de ler alguns artigos que voltaram a falar forte ao meu coração. Li cuidadosamente, os escritos de homens de Deus que fizeram história. Alguns, destes artigos penso em replicar no blog com objetivo de edificar a vida espiritual do povo de Deus, principalmente daqueles que não tiveram a oportunidade de ler estes belos artigos. Os créditos são dados ao Jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus no Brasil.

Este artigo pastoral deste primeiro número do Forum Convencional - Boletim Informativo (março e abril de 1994) foi escrito há quatro anos antes e publicado no MENSAGEIRO DA PAZ.



A Assembleia de Deus daqui a 50 anos


Até Nabucodonozor se preocupava com o que seria o seu reino depois dele (Dn 2.29). So que ele soberbamente se preocupava com sua própria grandeza e a de seus herdeiros no reino.

Quanto a nós que constituímos a Assembleia de Deus no Brasil, de modo especial os que têm o encargo da liderança, é justo que nos preocupemos com o futuro desta igreja a quem Deus confiou grandes responsabilidades, nestes tempos que precedem a vinda do Senhor Jesus.

Há anos passados, a revista OBREIRO publicou um artigo nosso, em que expusemos três fases importantes da Assembleia de Deus no Brasil: fundação, expansão e consolidação, com vistas a alertar a liderança da Igreja na atual geração para a enorme responsabilidade que lhe cabe quanto à manutenção do padrão bíblico da igreja, seu nível espiritual e sua condição para satisfazer os santos propósitos de Deus quanto à salvação do mundo e sua consequente grandeza e estabilidade espiritual.

Nas linhas que compõem este trabalho, formulamos uma pergunta cuja resposta só virá cabalmente daqui a meio século. Nesse tempo não estarei mais aqui para testemunhar os fatos que são objetos de nossa preocupação. Muitos outros, qualquer que seja sua condição espiritual, já estarão também na eternidade. Se Jesus não vier antes disso, muitos jovens que leram este artigo certamente se recordarão das nossas predições e, esperamos, permita o Senhor da Glória as vejam cumpridas em seus aspectos positivos. Amém!

História acidentada

À luz das Sagradas Escrituras, a Igreja de Jesus Cristo, por Ele edificada (Mt 16.18), não deveria ter uma história tão acidentada, incluindo frequentes e longos períodos de retrocessos e derrotas a que os séculos têm testemunhado. Isto tem acontecido todas as vezes que os homens têm falhado no cumprimento da missão divina.

Jesus entregou a direção da sua igreja a homens a quem chamou e vocacionou com vistas ao “aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo...” (Ef 4.11-14). Há, certamente, nos anais do Tribunal de Cristo, farto registro de muitos, que em diferentes épocas, em suas respectivas gerações, cumpriram fielmente a divina missão e contribuíram satisfatoriamente para que a Igreja atingisse as metas estabelecidas por Cristo. Também deve haver a “nota” dos que, nos seus dias, pelos motivos que “bem lhes pareceram”, inconscientes ou teimosamente, egoísta ou displicentemente, levaram a Igreja do Senhor ao nível de mera organização religiosa, inoperante e sem vida (Ap 3.1).

Desunião entre ministros

O espaço não nos permite enumerar os fatores que têm prejudicado a Igreja, mas dentre os muitos, a desunião entre os ministros figura entre os que mais têm contribuído para grandes males. Malditos os encontros, malditos os discursos, malditas as decisões que têm contribuído para lançar discórdia no seio da Igreja de Deus e semear intriga entre irmãos em Cristo. O pode do Espírito só se manifesta onde há unidade de Espírito.

As desavenças entre os que pregam a paz tanto causam escândalo e perturbação como entristecem o Espírito Santo e, consequentemente impedem o avivamento.

Não é sem propósito que Deus tem infundido em tão grande número de cristão a crença no batismo com o espírito Santo e o revestimento de poder, nestes dias em que a densidade demográfica tem alcançado proporções alarmantes. Temos hoje o maior número de crentes de todos os tempos e o maior número de descrentes, desde que o mundo existe. Temos também os maravilhosos recursos da tecnologia moderna e dos meios de comunicação.

É a vontade de Deus que haja nestes últimos dias muitos milhões de crentes salvos, cheios do Espírito Santo e de poder, pois há bilhões de perdidos por evangelizar. Por que falamos de crentes cheios do Espírito Santo e de poder? Porque crentes fracos e sem vida não evangelizam.

A história registra o declínio espiritual de numerosos movimentos espirituais aos 50 anos de existência. Conheço a Assembleia de Deus há 45 anos. Hoje está bem maior do que quando aceitei a fé, mas, em proporção, deveria está ainda muito maior. O ritmo de crescimento não corresponde ao número de crentes de que já se compõe. Se todos vivessem e trabalhassem no poder do Espírito a colheita seria muito mais abundante.

Orgulho denominacional

Passemos à grande pergunta: O que será a Assembleia de Deus daqui a 50 anos? Percebo que é bem alto o número de pessoas que necessitam de maior e mais profunda experiência com Deus. Que tenham realmente a experiência da salvação e do novo nascimento. Receio que esteja muito estreito o vínculo divisório entre a Igreja e o mundo, parece-me que forças estranhas estão empenhadas por obliterá-la. Para isto estão contribuindo os que substituem a simplicidade e a modéstia cristã pelas modas e costumes mundanos. Os que desprezam a meditação na Palavra de Deus e a oração pelos programas formalistas e os que se ocupam só de ensaios. Os que fogem da Escola Dominical e da evangelização, por comodismo ou displicência. O que passam o domingo na praia e os que deixam os cultos pelas novelas. Os que têm a responsabilidade do ministério, mas não cumprem a prescrição divina: “Prega a palavra, insta, a tempo e fora de tempo, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.2).

Já vemos muitos púlpitos sem mensagem e muitas pregações sem conteúdo bíblico e espiritual. Aí estão os que exercem o ministério como meio de ganhar a vida e não de ganhar as almas. Por este caminho seguiram muitas igrejas que hoje possuem pequenos templos, grande demais para os que se congregam. Por esta senda trilharam igrejas que só resta a organização, que estão fechando os seus templos ou vendendo-os a ateus e inimigos do evangelho. Estas coisas estão acontecendo em nossos dias e alguns casos são de nosso conhecimento pessoal. Tudo isto pode acontecer quando o orgulho denominacional e a vaidade do pregador e dos crentes tomam o lugar da santidade e do Espírito no seio da Igreja. Estas coisas constituem grandes males, refletindo, além disso, o mal maior – a pobreza espiritual dos crentes.

Se a Assembleia de Deus não vigiar e não fechar as portas para os males aí denunciados, se seguir o exemplo dos que trocam a Bíblia pela “etiqueta social”, se apegar-se aos métodos humanos em detrimento  da oração e da pregação da Palavra de Deus no poder do Espírito Santo, daqui a 50 anos poderá ser apenas  uma grande denominação composta de muitos doutores e mestres modernistas sem vida, aplaudidos por aqueles que “não suportam a sã doutrina”, que sofrem “coceira nos ouvidos” (1 Tm 4.3,4); poderá ser apenas uma grande denominação, no entanto menos numerosa do que hoje! Igreja sem doutrina e sem o poder de Deus, da qual, na melhor das hipóteses, os crentes se tornam semelhantes aos sete mil contemporâneos de Elias – existem, mas só Deus sabe onde eles estão.

Portas abertas para o mundo

Há os que presunçosa ou teimosamente estão ensinando que, ou a Assembleia de Deus muda a sua norma doutrinária ou disciplinar (abre as portas para o mundo), ou então se esvaziará.  Isso não é verdade. É antibíblico. É a voz tentadora do inimigo de Deus e da Igreja. Ao contrário, se a Igreja abrir as portas para o mundo, estará fechando-as para o Espírito Santo, e, assim, de fato, inevitavelmente, esvaziar-se-á,conforma os tristes exemplos acima aludidos, que estão às vistas de quantos tenham olhos para ver.

Se, ao contrário, a Igreja perseverar na doutrina dos apóstolos (At 2.42), no poder do Espírito Santo (At 1.8; Ef 5.18) e na santidade da Palavra de Deus (Ef 5.26,27), os levianos, inconscientes e mundanos poderão sair, mas a Igreja continuará edificando-se e caminhando no temor do Senhor, no conforto do Espírito Santo e crescendo em número (At 9.31). A prova disto são os muitos milhares de jovens crentes da Assembleia de Deus que vivem na plenitude do Espírito Santo, e são na igreja exemplo da santidade, sincera devoção e eficiente atividade.

Devemos admitir, com tristeza, que tem diminuído o percentual dos que oram, dos que evangelizam, dos que se convertem, dos que são batizados com o Espírito Santo, e da operação de curas e dos milagres. Essas atividades e operações são o melhor impacto de um avivamento espiritual autêntico.

Não convém dissimular. É mister que aceitemos a realidade e armemo-nos com a Armadura de Deus (Ef 6.10-18), para enfrentarmos esta situação, reconduzindo a Igreja ao padrão bíblico divino, antes que tenhamos a lamentar, semelhante ao povo de Deus no passado: “Já não vemos nossos sinais, já não há profetas” (Sl 74.9).

Uma potência Espiritual

Por outro lado, a Assembleia de Deus no Brasil tem tudo para se tornar uma potência espiritual capaz de cumprir a divina missão de levar o mundo a Cristo. A Igreja já se compõe de vários milhões de membros, na maioria jovens. Possui em suas fileiras muitas pessoas com diferentes cursos universitários e já se projeta no cenário político nacional. Com todo este potencial colocado nas mãos de Deus, corrigindo as falhas já registradas, promovendo o reajustamento da verdadeira fraternidade entre pastores e membros em geral, reintegrando-se totalmente nos padrões genuinamente pentecostais, dando ênfase ao batismo com o Espírito Santo e ao real revestimento de poder, pela santidade e pureza dos costumes, pela obediência à Palavra de Deus e pela consagração, proporcionado ao Espírito Santo de Deus o ambiente adequado para a manifestação dos dons. Se todos pregarem a mensagem salvadora, ungida pelo Espírito Santo e ilustrada pelos bons exemplos, daqui a 50 anos, a Assembleia de Deus terá atingido todas as classes sociais, influenciando-as positivamente com o conhecimento da verdade do evangelho, inclusive as autoridades e o governo em todos os seus escalões.

Isto, no entanto, nunca será alcançado por uma denominação simplesmente numerosa, mas por uma igreja que trabalha e vive na santidade da Palavra de Deus e no poder do Espírito santo.

O progresso e o triunfo total da Igreja dependem e dependerão de um avivamento permanente e poderoso. E, em relação a esse avivamento, há três grupos distintos no seio da igreja,

Primeiro grupo - Os que estão contribuindo para que o avivamento continue. São os que realmente nasceram de novo, que servem e obedecem a Deus por amor, que se alimentam diária e regularmente da leitura e meditação da Palavra de Deus e da oração que respeita a sã doutrina como regra infalível de fá e prática, que se conservam dentro dos padrões quanto à sobriedade e à modéstia cristã, que praticam e promovem a fraternidade por respeito à paternidade divina, que contribuem para o progresso da obra de Deus com o seu trabalho e com o seu dinheiro, que praticam o cristianismo no templo, em casa e no trabalho, os que pregam e vivem o que pregam; enfim, os que vivem em Cristo, por Cristo e para Cristo.

Segundo Grupo – Os que não estão contribuindo para o que o avivamento aconteça. Este grupo se compõe do s que professam a fé no evangelho, não causam escândalo na Igreja nem na sociedade, que vão aos cultos nos dias de festas e domingo de bom tempo, mas não compartilham das orações e da evangelização e não participam das responsabilidades financeiras da igreja; enfim, os que desempenham o papel de meros espectadores decentes!

Terceiro grupo – Os dos que contribuem para que o avivamento não aconteça ou desapareça. Este é composto dos que se dizem crentes, mas são crentes do seu próprio modo. Não honram a sã doutrina e os bons costumes mas querem ser honrados; não respeitam o ministério da Igreja, mas querem os privilégios da liderança e posições destacadas; que dão mal testemunho na vizinhança e no comércio, onde exalam o mal cheiro de seus negócios feios; são insatisfeitos e murmuradores, maledicentes e intrigantes; são os que causam divisões e promovem discórdias e desordem no seio da Igreja de Deus, não evangelizam, não oram e não cooperam financeiramente; enfim, os que contribuem para desacreditar o Evangelho e entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30).

Por outro lado, são igualmente prejudiciais à macha do avivamento, os que confundem o poder de Deus com barulho, vida espiritual abundante com fanatismo, os que buscam ser aplaudidos ostentando uma espiritualidade irreal, bem como os que vivem de empolgações infrutíferas, que levam ao descrédito a operação do Espírito Santo.


Você está colaborando para que a sua igreja seja um organismo vivo, poderoso, para que ela cumpra cabalmente sua missão no plano de Deus para o mundo e seja apresentada a Cristo Igreja gloriosa, sem mácula e sem ruga? O futuro da Igreja depende muito da sua condição espiritual e do que você fizer por ela hoje!

Fonte: Forum Convencional - Boletim Informativo da CGADB
Publicação bimestral - Março e abril de 1994.

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