segunda-feira, 28 de novembro de 2011

“O Espírito do Senhor é sobre mim...”

Por Pr. Nonato Souza
Estando Jesus na sinagoga de Nazaré, foi-lhe dado o livro do profeta Isaias; e ao abrir o livro achou o lugar em que estava escrito: 

“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a apregoar liberdade aos cativos e dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19).

Ninguém melhor que Jesus identificou-se de forma tão plena com o Espírito Santo. Ele deu lugar ao Espírito Santo não apenas como algo momentâneo, mas um relacionamento que Ele desfrutou durante toda sua vida e ministério. Podemos observar isso com clareza ao analisarmos os pontos abaixo.

Ele foi concebido pelo Espírito Santo.

Temos este fato confirmado em várias passagens da Escrituras: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35; veja outras passagens: Mt 1.18,20). “Na concepção de Jesus, não foi chamado à vida um novo ser (como em todos os outros casos de nascimento humano), mas sim Alguém que existira eternamente e que, pela sua concepção, entrava agora numa relação vital com a natureza humana. Quando Cristo foi concebido, não se tratava da concepção de uma personalidade humana e sim de uma natureza humana. Só há uma personalidade em Jesus Cristo, a saber, o Eterno, que era e é o Filho de Deus” [1].

Ele foi ungido pelo Espírito Santo.

“Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (At 10.38). Todas as unções que estão mencionadas no Antigo Testamento, quer de profetas, sacerdotes ou de reis, tem o seu cumprimento nesta unção de Jesus Cristo, pois o mesmo, cumpriria a seu tempo os ofícios de profeta, sacerdote e rei.

Ele foi guiado pelo Espírito Santo.

“Então foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto,...” ( Mt 4.1 ). O fato de Jesus ter sido “impelido para o deserto” (impelido é termo usado pelo evangelista Marcos 1.12,13), pelo Espírito para ser tentado por Satanás, não significa que tenha sido abandonado ali, mas que, durante todo o tempo em que permaneceu ali foi guiado, ajudado a vencer as tentações pelo poder do Espírito. Depois a Bíblia diz que Ele: “no poder do Espírito regressou” (Lc 4.14). Durante todo o tempo de sua tentação Jesus foi assistido pelo Espírito Santo, e foi por meio do Espírito que a sua natureza humana venceu as tentações colocadas diante Dele.

Ele foi cheio do Espírito Santo.

“E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto” ( Lc 4.1 ). Foi por está cheio do Espírito santo que Jesus resistiu firmemente Satanás e saiu vencedor contra as tentações. Jesus foi preparado e equipado para a batalha. Matthew Henry [2] diz: “Ele estava cheio do Espírito Santo, que havia descido sobre Ele como uma pomba. O Senhor Jesus tinha agora medidas maiores de dons, graças e consolações do Espírito Santo do que antes”.

Realizou seu ministério no poder do Espírito Santo.

“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a por em liberdade os oprimidos, anunciar o ano aceitável do Senhor” ( Lc 4.18,19 ).
Através do Espírito Santo, Jesus pregava com unção (Lc 4.18; 5.14,15), teve poder sobre os demônios ( Lc 11.20; Mc 5.7; At 10.38 ), sobre as enfermidades ( Mt 15.29-31 ), sobre a morte ( Lc 8.49-55; Jo 11.39-44 ), etc.

Ofereceu-se em sacrifício pelo Espírito Santo.

Ele foi capacitado pelo Espírito Santo para oferecer o sacrifício necessário pelos pecados. “Quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” ( Hb 9.14 ). Não era o bastante que Cristo morresse pelos nossos pecados, o seu sacrifício teria que ser perfeito, isso foi possível mediante o Espírito Santo

Foi ressuscitado pelo Espírito Santo.

“E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará o vosso corpo mortal, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8.11 ). O texto sagrado diz que Ele foi ressuscitado dos mortos pelo Espírito Santo. Algumas vezes a ressurreição de Jesus é atribuída ao Pai (At 2.24), outras vezes é atribuída ao próprio Filho (Jo 10.17,18).

Deu mandamento aos apóstolos após ressuscitar por intermédio do Espírito Santo.

“Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de Ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera” ( At 1.1,2 ). É o mesmo Senhor que dar ordens pelo Espírito hoje à igreja, guiando e dirigindo em todos os empreendimentos. A igreja não depende da presença física do Senhor para ser guiada por Ele. Essa orientação é feita pelo Espírito Santo, que está presente (Jo 14.16).

Ele mesmo é o doador do Espírito à Igreja.

Cristo foi quem concedeu o Espírito Santo à Igreja. “De sorte que, exaltado pela destra de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” ( At 2.33 ). Este foi o cumprimento da promessa feita a seus discípulos. “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai...” (Jo 15.26). Concluímos dizendo que o Espírito Santo que estava sobre Jesus, o assistiu durante todo o seu ministério terreno.


Notas Bibliográficas

[1] Fundamento da Teologia Pentecostal. Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave vol. II. Pg. 7
[2] Comentário Bíblico Novo Testamento Mateus a João. Matthew Henry, pg. 545. CPAD

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Igreja Versus o Mundo

Por John MacArthur
Por que os evangélicos tentam cortejar desesperadamente o favor do mundo? As igrejas planejam seus cultos com o objetivo de agradar as pessoas que não freqüentam qualquer igreja. Artistas cristãs imitam todas os estilos efêmeros do mundo tanto na música como no entretenimento. Os pregadores estão horrorizados com o fato de que a ofensa do evangelho pode colocar alguém contra eles, por isso omitem deliberadamente partes da mensagem que o mundo não aprovara.

O evangelicalismo parece ter sido seqüestrado por legiões de porta-vozes carnais que estão fazendo o melhor que podem para convencer o mundo de que a igreja pode ser tão inclusiva, pluralista, mente aberta como as pessoas mais mundanas.

A busca pela aprovação do mundo é o mesmo que prostituição espiritual. De fato, essa foi exatamente a figura que o apóstolo Tiago usou para descrevê-la. Ele escreveu: "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4.4).

Sempre existiu e existirá uma incompatibilidade fundamental entre a igreja e o mundo. O pensamento cristão não se harmoniza com todas as filosofias do mundo. A fé genuína em Cristo envolve uma negação de todos os valores mundanos. A verdade bíblica contradiz todas as religiões do mundo. O cristianismo é, por essa razão, oposto a quase tudo que este mundo admira.

Jesus disse aos seus discípulos: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia" (João 15.18-19).

Observe que nosso Senhor considerou uma realidade absoluta o fato de que o mundo desprezaria a igreja. Em vez de ensinar seus discípulos a tentarem conquistar o favor do mundo, por reformularem o evangelho, para que este se adequasse às preferências do mundo, Jesus advertiu expressamente que a busca pelos louvores do mundo é uma característica dos falsos profetas: "Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas" (Lucas 6.26).

Depois, ele esclareceu: "O mundo... me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más" (João 7.7). Em outras palavras, o desprezo do mundo para com o cristianismo origina-se de motivos morais, e não intelectuais: "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras" (João 3.19-20). Essa é a razão por que, não importando quão profundamente diversa seja a opinião do mundo, a verdade cristã nunca será popular no mundo.

No entanto, em quase toda a era da história da igreja, tem havido pessoas na igreja que estão convencidas de que a melhor maneira de ganhar o mundo para Cristo é satisfazer os gostos do mundo. Essa maneira de agir sempre trouxe detrimento à mensagem do evangelho. As únicas épocas em que a igreja causou impacto significante no mundo foram aquelas em que o povo de Deus permaneceu firme, recusou comprometer-se e proclamou com ousadia a verdade, apesar da hostilidade do mundo. Quando os cristãos se esquivaram da tarefa de confrontar as ilusões mundanas populares com as verdades bíblicas impopulares, a igreja perdeu a sua influência e mesclou-se impotentemente com o mundo. Tanto a Escritura como a história atestam esse fato.

E a mensagem cristã não pode simplesmente ser mudada para se conformar com as vicissitudes das opiniões do mundo. A verdade bíblica é fixa e constante, não sujeita a mudança ou adaptação. Por outro lado, a opinião do mundo está em fluxo constante. As tendências e as filosofias que dominam o mundo mudam radicalmente, com regularidade, de geração a geração. A única coisa que permanece constante é o ódio do mundo para com Cristo e o seu evangelho.

Com toda a probabilidade, o mundo não adotará por muito tempo qualquer ideologia em voga neste ano. Se o padrão da história serve como indicador, quando os nossos netos se tornarem adultos, a opinião do mundo será dominada por um sistema completamente novo de crença e todo um novo sistema de valores. A geração de amanhã renunciará todas as modas e filosofias passageiras de hoje. Todavia, uma coisa se manterá inalterada: até que o Senhor volte e estabeleça seu reino na terra, qualquer ideologia que ganha popularidade no mundo será hostil à verdade bíblica, como o foram as suas antecessoras.

Traduzido por: Wellington Ferreira

Copyright © John MacArthur Jr

© Editora FIEL 2009.

Fonte: editorafiel

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Cruz e o Eu

Por Arthur W. Pink
Antes de abordarmos o tema deste versículo, desejamos fazer algumas considerações sobre os seus termos. “Se alguém” — o termo utilizado refere-se a todos os que desejam unir-se ao grupo dos seguidores de Cristo e alistar-se sob a bandeira dEle. “Se alguém quer” — o grego é muito enfático, significando não somente a anuência da vontade, mas também o propósito completo do coração, uma resolução determinada. “Vir após mim” — como um servo sujeito a seu Senhor, um aluno, ao seu Mestre, um soldado, ao seu Capitão. “Negue” — o vocábulo grego significa negue-se completamente. Negue-se a si mesmo — a sua natureza pecaminosa e corrupta. “Tome” — não quer dizer leve ou suporte passivamente, e sim assuma voluntariamente, adote ativamente. “A sua cruz” — que é desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas, apesar disso, é a marca distintiva de um verdadeiro crente. “E siga-me” — viva como Cristo viveu, para a glória de Deus.

O contexto imediato é ainda mais solene e impressionante. O Senhor Jesus acabara de anunciar aos seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de sua morte de humilhação (v. 21). Pedro, admirado, disse-Lhe: “Tem compaixão de ti, Senhor” (v. 22). Estas palavras expressaram a política da mentalidade carnal. O caminho do mundo é a satisfação e a preservação do “eu”. “Poupa-te a ti mesmo” é a síntese da filosofia do mundo. Mas a doutrina de Cristo não é “salva-te a ti mesmo”, e sim sacrifica-te a ti mesmo. Cristo discerniu no conselho de Pedro uma tentação da parte de Satanás (v. 23) e, imediatamente, a repeliu. Jesus disse a Pedro não somente que Ele tinha de ir a Jerusalém e morrer ali, mas também que todos os que desejassem tornar-se seguidores dEle tinham de tomar a sua cruz (v. 24). Existia um imperativo tanto em um caso como no outro. Como instrumento de mediação, a cruz de Cristo permanece única; todavia, como um elemento de experiência, ela tem de ser compartilhada por todos os que entram na vida.

O que é um “cristão”? Alguém que possui membresia em uma igreja na terra? Não. Alguém que afirma um credo ortodoxo? Não. Alguém que adota certo modo de conduta? Não. Então, o que é um cristão? É alguém que renunciou o “eu” e recebeu a Cristo Jesus como Senhor (Cl 2.6). O verdadeiro cristão é alguém que tomou sobre si o jugo de Cristo e aprende dEle, que é “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). O verdadeiro cristão é alguém que foi chamado à comunhão do Filho de Deus, “Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Co 1.9): comunhão em sua obediência e sofrimento agora; em sua recompensa e glória no futuro eterno. Não existe tal coisa como o pertencer a Cristo e viver para satisfazer o “eu”. Não se engane nesse ponto. “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27) — disse o Senhor Jesus. E declarou novamente: “Aquele que [em vez de negar-se a si mesmo] me negar diante dos homens [e não para os homens — é a conduta, o andar que está em foco nestas palavras], também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.33).

A vida cristã tem início com um ato de auto-renúncia, sendo continuada por automortificação (Rm 8.13). A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o deteve, foi esta: “Que farei, Senhor?” (At 22.10.) A vida cristã é comparada a uma corrida, e o atleta é chamado a desembaraçar-se “de todo peso e do pecado que tenazmente... assedia” (Hb 12.1) — ou seja, o pecado que está no amor ao “eu”, o desejo e a resolução de seguir nosso próprio caminho (Is 53.6). O grande e único alvo, objetivo e tarefa colocados diante do cristão é seguir a Cristo: seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pe 2.21); e Ele não agradou a Si mesmo (Rm 15.3). Existem dificuldades no caminho, obstáculos na jornada, dos quais o principal é o “eu”. Portanto, ele tem de ser “negado”. Este é o primeiro passo em direção a seguir a Cristo.

O que significa negar completamente a si mesmo? Primeiramente, significa o completo repúdio de sua própria bondade: cessar de confiar em quaisquer de nossas obras para recomendar-nos a Deus. Significa uma aceitação irrestrita do veredicto divino de que todos os nossos melhores feitos são “como trapo da imundícia” (Is 64.6). Foi neste ponto que Israel falhou, “porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10.3). Esta afirmativa deve ser contrastada com a declaração de Paulo: “E ser achado nele, não tendo justiça própria” (Fp 3.9).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino de Deus, se não se tornar como uma “criança” (Mt 18.3). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21.) “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22). Quando o Espírito Santo aplica o evangelho com poder em uma alma, Ele o faz “para destruir fortalezas, anulando... sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). Um lema sábio que todo cristão deve adotar é: “Não te estribes no teu próprio entendimento” (Pv 3.5).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar suas próprias forças: não ter qualquer confiança na carne (Fp 3.3). Significa prostrar o coração à afirmativa de Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Foi neste ponto que Pedro falhou (Mt 26.33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). Quão necessário é que estejamos sempre atentos! “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12). O segredo do vigor espiritual se encontra em reconhecermos nossa fraqueza pessoal (ver Is 40.29; 2 Co 12.9). Sejamos, pois, fortes “na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar de todo a sua própria vontade. A linguagem de uma pessoa não-salva é: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19.14). A atitude de um verdadeiro cristão é: “Para mim, o viver é Cristo” (Fp 1.21) — honrar, agradar e servir a Ele. Renunciar a nossa própria vontade significa dar atenção à exortação de Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”; e isto é definido nos versículos seguintes como auto-renúncia. Renunciar a nossa própria vontade é o reconhecimento prático de que não somos de nós mesmos e de que fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20); é dizermos juntamente com Cristo:

“Não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.36).

Negar completamente a si mesmo significa renunciar as suas próprias concupiscências ou desejos carnais. “O ego de um homem é um pacote de ídolos” (Thomas Manton), e esses ídolos têm de ser repudiados. Os não-crentes amam a si mesmos (2 Tm 3.2 – ARC). Todavia, alguém que foi regenerado pelo Espírito diz, assim como Jó: “Sou indigno... Por isso, me abomino” (40.4; 42.6). A respeito dos não-crentes, a Bíblia afirma: “Todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus” (Fp 2.21). Mas, a respeito dos santos de Deus, está escrito: “Eles... mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). A graça de Deus está nos educando “para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12).

Este negar a si mesmo que Cristo exige dos seus seguidores é total. Não há qualquer restrição, quaisquer exceções — “Nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Rm 13.14). Este negar a si mesmo tem de ser contínuo e não ocasional — “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). Tem de ser espontâneo, não forçado; realizado com alegria e não com relutância — “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23). Oh! quão perversamente tem sido abaixado o padrão que Deus colocou diante de nós! Como este padrão condena a negligência, a satisfação carnal e a vida mundana de muitos que se declaram (inutilmente) “cristãos”!

“Tome a sua cruz.” Isto se refere à cruz não como um objeto de fé, e sim como uma experiência na alma. Os benefícios legais do Calvário são recebidos por meio de crer, quando a culpa do pecado é cancelada, mas as virtudes experimentais da cruz de Cristo são desfrutadas apenas quando somos conformados, de modo prático, “com ele na sua morte” (Fp 3.10). É somente quando aplicamos a cruz, diariamente, ao nosso viver e regulamos nosso comportamento pelos princípios dela, que a cruz se torna eficaz sobre o poder do pecado que habita em nós. Não pode haver ressurreição onde não há morte; não pode haver um andar prático, “em novidade de vida”, enquanto não levamos “no corpo o morrer de Jesus” (2 Co 4.10). A cruz é a insígnia, a evidência do discipulado cristão. É a cruz de Cristo e não o credo dEle que faz a distinção entre um verdadeiro seguidor de Cristo e os religiosos mundanos.

Ora, em o Novo Testamento a “cruz” representa realidades definidas. Primeiramente, a cruz expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus não veio para julgar, e sim para salvar; não veio para castigar, e sim para redimir. Ele veio ao mundo “cheio de graça e de verdade”. O Filho de Deus sempre estava à disposição dos outros: ministrando aos necessitados, alimentando os famintos, curando os enfermos, libertando os possessos de espíritos malignos, ressuscitando mortos. Ele era cheio de compaixão — manso como um cordeiro, totalmente sem pecado. O Filho de Deus trouxe consigo boas-novas de grande alegria. Ele buscou os perdidos, pregou aos pobres, mas não desprezou os ricos; e perdoou pecadores. De que modo Cristo foi recebido? Que boas-vindas os homens Lhe ofereceram? Os homens O desprezaram e rejeitaram (Is 53.3). Ele disse: “Odiaram-me sem motivo” (Jo 15.25). Os homens sentiram sede do sangue de Jesus. Nenhuma morte comum lhes satisfaria. Exigiram que Jesus fosse crucificado. Por conseguinte, a cruz foi a manifestação do ódio inveterado do mundo para com o Cristo de Deus.

O mundo não se alterou, assim como o etíope ainda não mudou a sua pele e o leopardo, as suas manchas. O mundo e Cristo ainda estão em antagonismo. Por isso, a Bíblia afirma: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). É impossível andarmos com Cristo e gozarmos de comunhão com Ele, enquanto não tivermos nos separado do mundo. Andar com Cristo envolve necessariamente compartilhar de sua humilhação — “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13.13). Foi isso o que Moisés fez (ver Hb 11.24-26). Quanto mais intimamente eu estiver andando com Cristo, tanto mais incorretamente serei compreendido (1 Jo 3.2), tanto mais serei ridicularizado (Jó 12.4) e odiado pelo mundo (Jo 15.19). Não cometa erro neste ponto: é totalmente impossível ser amigo do mundo e andar com Cristo. Portanto, tomar a cruz significa que eu desprezo voluntariamente a amizade do mundo, recusando conformar-me com ele (Rm 12.2). Que me importa a carranca do mundo, se estou desfrutando do sorriso do Salvador?

Tomar a cruz significa uma vida de sujeição voluntária a Deus. No que concerne à atitude de homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato. Mas, no que se refere à atitude do próprio Senhor Jesus, a sua morte foi um sacrifício espontâneo, uma oferta de Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência a Deus. Ele mesmo disse: “Ninguém a tira de mim [a vida dEle]; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” (Jo 10.18). E por que Ele a entregou espontaneamente? As próximas palavras do Senhor Jesus nos dizem: “Este mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo. Nisto, Ele é nosso exemplo. Citamos novamente Filipenses 2.5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Nas palavras seguintes, vemos o Amado do Pai assumindo a forma de um servo e “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

Ora, a obediência de Cristo tem de ser a obediência do cristão — voluntária, alegre, irrestrita, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e sofrimento, menosprezo e perdas, não devemos vacilar; pelo contrário, temos de fazer o nosso “rosto como um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais do que um objeto da fé do cristão, é a insígnia do discipulado, o princípio pelo qual a vida do crente deve ser regulada. A cruz significa entrega e dedicação a Deus — “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

A cruz representa sofrimento e sacrifício vicários. Cristo entregou sua própria vida em favor de outros; e os seguidores dEle são chamados a fazerem espontaneamente o mesmo — “Devemos dar nossa vida pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Esta é a lógica inevitável do Calvário. Somos chamados a seguir o exemplo de Cristo, à comunhão de seus sofrimentos, a sermos cooperadores em sua obra. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Fp 2.7), assim também devemos nos esvaziar. Cristo “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20.28); temos de agir da mesma maneira. Assim como Cristo “não se agradou a si mesmo” (Rm 15.3), assim também não devemos agradar a nós mesmos. Como o Senhor Jesus sempre pensou nos outros, assim devemos nos lembrar “dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos”, como se fôssemos nós mesmos os maltratados (Hb 13.3).

“Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). Palavras quase idênticas a estas se encontram também em Mateus 10. 39, Marcos 8.35, Lucas 9.24; 17.33, João 12.25. Esta repetição certamente é um argumento em favor da profunda importância de prestarmos atenção e atendermos às palavras de Cristo. Ele morreu para que vivêssemos (Jo 12.24); devemos agir de modo semelhante (Jo 12.25). Assim como Paulo, devemos ser capazes de afirmar: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo” (At 20.24). A “vida” de satisfação do “eu” neste mundo é perdida na eternidade. A vida que sacrifica os interesses do “eu” e se rende a Cristo, essa vida será achada novamente e preservada em toda eternidade.

Um jovem que concluíra a universidade e tinha perspectivas brilhantes respondeu à chamada de Cristo para uma vida de serviço para Ele na Índia, entre as classes mais pobres. Seus amigos exclamaram: “Que tragédia! Uma vida desperdiçada!” Sim, foi uma vida “perdida” para este mundo, mas “achada” no mundo por vir.

Fonte: editorafiel

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Evangelização, uma prática para a Igreja atual?

Por Pr. Nonato Souza
Semear a semente da Palavra de Deus é responsabilidade de cada crente alcançado pela graça salvadora em Cristo Jesus. 

“Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).

Vejo com bons olhos a necessidade de retorno à prática da evangelização. Entendo ser essa necessidade urgente. Retornar ao trabalho espiritual, outrora tão praticado pela igreja é algo primacial e coerente.

Focaremos, então, de forma específica, o assunto da evangelização como prática para a igreja atual.

Evangelho é boas novas do Senhor Jesus Cristo, perfeitamente compreensível por todos. Evangelismo é na verdade, a tarefa de testemunhar do Senhor Jesus àqueles que estão perdidos. É especificamente a Grande Comissão que foi entregue pelo Senhor Jesus aos seus discípulos (Mt 28.19,20).

Fazer discípulos, batizá-los e ensinar-lhes o que aprendemos do Senhor Jesus é o autêntico evangelismo, e, portanto, a responsabilidade de cada crente.

Existe, até certo ponto, um abandono desta atividade tão prima, na igreja atual por parte daqueles que a compõe. Há um estado de acomodação ao ambiente das quatro paredes e raramente nos aventuramos a uma saída para o campo evangelístico.

Outrora, estávamos acostumados ver aos finais de semanas, a leitura da lista de vários nomes dos novos convertidos que foram evangelizados e ganhos pela igreja durante a semana, para que pudéssemos discipular e integrá-los .

Nos dias atuais entra mês, sai mês, não vemos a menção sequer de alguém, que por ventura, tenha se decidido por Cristo.

Isto é tão sério, e não obstante à seriedade do fato, não nos incomodamos com esta situação. Para alguns, tudo normal.

Ah, meu Deus! Será que não é hora de voltar ao principio da evangelização, ao desejo profundo de ganhar almas? Não é o evangelismo um trabalho vital que o crente deve realizar? Se não há evangelização, então, há uma falha grave que precisa ser corrigida urgentemente, pois essa pratica é uma das mais profundas características do Cristianismo. Esse é sem dúvida um trabalho primacial e da maior importância para a Igreja do Senhor Jesus.

Não há tarefa mais importante destinada à Igreja do Senhor Jesus, que anunciar a salvação através de Cristo a toda humanidade. A Igreja primitiva se ocupou primacialmente desta tarefa. A evangelização foi de tal maneira desenvolvida pelos cristãos primitivos que, em aproximadamente dois anos, a Ásia Menor já havia sido alcançada.

Tendo sido o Senhor Jesus assunto ao céu, o mundo de então passou a se ressentir da necessidade de uma mensagem que comunicasse paz e felicidade à alma. O poder romano, a filosofia grega e a religiosidade judaica não conseguiam atender os reclamos daquela geração. Mas com a descida do Consolador, capacitando a Igreja a realizar eficazmente o trabalho evangelístico, essas reivindicações puderam ser satisfeitas.

Pedro se dedicou à evangelização dos judeus. Filipe foi a Samaria. O apóstolo Paulo, Barnabé, Silas e Timóteo e outros cooperadores, voltaram-se aos gentios. A Igreja através do Espírito Santo se envolveu integralmente com o trabalho de evangelização dos povos.

Nestes últimos dias, o Espírito Santo deseja usar todos os crentes para uma poderosa operação evangelística, porque a maior necessidade do mundo atual é ouvir a única mensagem que salva o pecador: o Evangelho de Cristo. E esta necessidade se torna mais premente se levarmos em conta que, face ao crescimento demográfico, o mundo encontra-se, hoje, menos evangelizado que nos dias de Paulo.

Não queremos dizer que este ou aquele método é o correto para se realizar o trabalho evangelístico. O importante é que o Espírito Santo glorifica a Cristo quando realizamos a obra de evangelização sob sua direção.

O trabalho evangelístico, efetivamente realizado pela igreja, precisa está bem definido. Além, do que, se deve entender que, em primeiro lugar, evangelizar não é uma opção; é uma obrigação (1Co 9.16).

A presença, inspiração e orientação do Espírito Santo tornará o trabalho realizado pelos cristãos, eficaz. Evangelizar sem a direção do Espírito Santo é trabalhar sem objetivos e incorrer em erros, além da ineficácia do trabalho. Atualmente os métodos de evangelismos têm sido aprimorados, e isso é bom, desde que não fujam aos princípios bíblicos que é sempre imutável e infalível.

“Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte anunciando a Palavra” (At 8.4). “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém!” (Mt 16.20).

A Palavra de Deus nos mostra o principio da evangelização efetivado na igreja, que infelizmente hoje se acha estagnado em grande parte das igrejas locais. Urge, pois, retornarmos imediatamente ao trabalho efetivo da evangelização, pois, esta é nossa principal tarefa nesta vida. A igreja deve empreender todo esforço possível no trabalho evangelístico, pois como enfatizou apóstolo Paulo, somos devedores. Você está disposto?

O olhar de Jesus

Por João Cruzué
É notável a diferença entre o olhar de Jesus e o olhar dos homens. Nascidos em pecado, estes habituam-se desde cedo ao pessimismo, ao desprezo e à desconfiança. Ajustam o foco sobre as fraquezas, defeitos, explorando detidamente o lado mesquinho e hipócrita das pessoas. Jesus Cristo, a expressão viva do amor de Deus, não segue este padrão, quando examinamos sua maneira de olhar nas páginas do Evangelho.

Por exemplo: Quando Jesus viu Simão Pedro pela primeira vez, não criticou suas fraquezas, nem profetizou que o negaria - embora soubesse de tudo isso. Em lugar de uma taquara (significado do nome Simão) Cristo viu uma rocha - Cefas. É assim que Deus nos vê. Quando nos aproximamos dele, não aponta o dedo para nossas fraquezas para que murchemos e desanimemos. O olhar de Jesus procura por aquilo que há de bom em nosso interior, ainda que seja uma partícula boa em um milhão de defeitos. Se você procurar por Ele, vai ser bem recebido.

Quando Jesus viu o baixinho Zaqueu no alto da figueira, não zombou dele perante a multidão. Poderia ter dito: Eis aí, o chefe dos coletores de impostos mais corrupto de Jericó. Não, ele não fez isto. Todos diriam assim, mas Jesus olhava com amor. Foi por isso que disse: Zaqueu, desce depressa, pois hoje vou jantar em tua casa". Apenas um olhar e algumas palavras foram suficientes para produzir a mudança mais inesperada na vida do chefe dos publicanos de Jericó.

Quando Jesus viu o coxo junto ao Tanque de Bestesda, ele não viu um aleijado. Ele viu um homem que depois de 38 anos doente ainda tinha esperança de ser curado. Todos viam um coxo maluco, mas Cristo enxergava um homem andando normalmente, levando embora um leito sobre as costas.Quando Jesus olhou para a mulher adúltera diante daquele grupo de apedrejadores, ele não viu uma prostituta, mas uma jovem que precisava apenas de uma oportunidade para se levantar e nunca mais pecar.

Quando Jesus mandou retirar a pedra do túmulo de Lázaro, ele não enxergava um cadáver mal-cheiroso, mas via um velho amigo caminhando diante de uma família de pessoas críticas.Jesus vê uma rocha onde todos veem uma taquara. Jesus vê um convertido sincero enquanto todos enxergam um fiscal corrupto sem possibilidades de recuperação. Jesus vê um homem correndo e saltando, enquanto os conhecidos enxergam um coxo inútil e teimoso. Jesus não atira pedras em quem está caído. Jesus enxerga vida, onde todos já desistiram ou taparam o nariz por causa do mau cheiro. Jesus Cristo não vira as costas para quem bate à sua porta.

Esta fixação em procurar os defeitos e descobrir os erros das pessoas para depois dizer para todo mundo; esta ânsia de difamar, de derribar para produzir no criticado um sentimento de pequenez, de frustração, de desânimo revela, na verdade, algo interessante sobre a pessoa do crítico. Mostra sua necessidade premente de manipular as faltas alheias para dispersar o foco sobre si mesmo. Usa a crítica como capa para cobrir a própria nudez. Era porisso que o diabo só enxergava maldade no caráter do patriarca Jó.

Em tempos em que é tão fácil descer a "lenha" na vida de nossos irmãos, não custa perguntar: de que maneira estamos vendo a vida deles. Se apenas conseguirmos enxergar defeitos, e nada mais que isto, temos um problema grave problema de miopia espiritual.

O olhar de Jesus é misericordioso, para aqueles que buscam seu socorro. Se nossas virtudes resumissem apenas a uma única gota d'água no fundo de um copo vazio, Ele volveria seus olhos para ela e nos diria: Me alegra que isto esteja em teu coração. Este é o olhar de Jesus.

Fonte: estudosgospel

sábado, 12 de novembro de 2011

O que representa beber o sangue de Cristo

Por Clériston Andrade
Jo 6:53-60 "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida.Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente. Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum. Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir"

Esta passagem relata o momento em que na sinagoga (templo judeu) Jesus falava aos seus ouvintes da necessidade de comer da Sua carne e beber do Seu sangue. Este discurso, longe de parecer uma pregação pró-canibalismo, era, sobretudo, um chamado a viver a vida de Cristo.

Todas aquelas pessoas que ouviam Jesus conheciam muito bem os preceitos da Lei judaica. Todos sabiam os moldes em que se dava o sacrifício de animais para o perdão de pecados. No período vetero-testamentário, quando os homens pecavam, o sacerdote os representava diante de Deus sacrificando um cordeiro sem mancha e sem mácula para que aquele animal pagasse com a vida pelos pecados do povo.

Hoje sabemos que Cristo é o Cordeiro de Deus que foi dado em nosso lugar. Recebemos a salvação através do Seu sacrifício vicário e compreendemos que sem o Seu sangue derramado o nosso fim seria a perdição. Mas mesmo para os discípulos aquele discurso de Jesus pareceu-lhes "duro demais".

O que será que tornava este sermão duro demais? O que diferenciava o sacrifício de Cristo do sacrifício praticado no Velho Testamento? Voltemos então àquele período para entendermos a razão do susto dos discípulos.

No Antigo Testamento, havia uma proibição explícita quando aos animais. "Somente empenha-te em não comeres o sangue, pois o sangue é a vida; pelo que não comerás a vida com a carne." (Dt 12:23). Comer a carne era receber as benesses do sacrifício, mas beber o sangue era algo proibido, porque o "o sangue é a vida".

Quando Jesus fala àqueles homens advindos do judaísmo e, portanto, cientes de todas as regras da Lei, Ele os diz não só para comer da Sua carne, mas também para beber do Seu sangue. Era aí que o discurso começava a parecer "duro demais"!

Comer a carne significa participar do sacrifício de Jesus, Beber o sangue de Cristo significa beber da Sua vida, pois como está em Dt 12:23 "o sangue é a vida". Receber a benesse do sacrifício vicário de Jesus, ou seja, a salvação, todos queremos, beber da Sua vida, entretanto, poucos desejam.

Quando celebramos a ceia do Senhor, ordenança que nos foi deixada pelo próprio Cristo, nós simbolizamos através do vinho e do pão a carne e o sangue do Cordeiro de Deus. Mas muito mais que um simples memorial, ser participante da mesa de Cristo, requer de nós que sejamos participantes da Sua vida.

Mt 16: 24 diz: "Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me."

A cruz é o ponto central do cristianismo porque para ela convergem todas as coisas, ela é o centro da história, nela passado, presente e futuro se integram. Na cruz Cristo nos justifica, santifica e nos garante a vida eterna. A cruz representa o ápice da humilhação do Deus que se fez homem para morrer pelo pecador. Mas a cruz de cristo não é somente a cruz dele, ela é também a cruz do que o segue.

"... Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me." Disse Jesus. Se entendermos a vida cristã somente como a vida daqueles que crêem na cruz, nós estaremos a entendendo pela metade. Nós não somente cremos na cruz, mas fomos também crucificados nela.

Carregar a cruz é negar-se a si mesmo, é tornar-se discípulo que imita o Mestre e mais que isso, é ter a própria vida do mestre em si. Beber o sangue de Cristo representa beber da vida dele, viver a vida dele, andar como Ele andou.

"...Estou crucificado com Cristo." Sentencia o apóstolo Paulo em Gl 2:19. Não somente Ele morreu por mim, mas eu também morri para os meus próprios desejos e para a minha própria concupiscência.

"Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos." Completa Romanos 6:6.

A cruz é também o lugar de libertação. É sendo crucificado com Cristo que eu sou livre da escravidão do pecado, é morrendo o velho homem que um novo homem nasce recriado à semelhança de Cristo.

Na ocasião em que Jesus falou sobre a necessidade de comermos da Sua carne e bebermos do Seu sangue muitos se retiraram, foram embora. Estas pessoas consideraram "duro demais" o discurso de Cristo. Esta é a natureza humana, afeita somente ao que agrada, ao que não exige morte, renúncia e abnegação. Por isso essa velha natureza tem que ser cravada na cruz, por isso ela deve morrer.

Mas é preciso entender que a vida eterna é precedida pela morte, pela morte do "eu", pelo sacrifício do velho homem. "Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos." Diz Rm 6:8.

Isso não significa salvação por obras. Significa, sim, que a fé que imputa sobre mim a justiça de Cristo também opera em mim a vida de Jesus. Recebemos os méritos de Cristo, mas é preciso entender que Ele morreu a nossa morte para que vivamos a Sua vida.

A graça de Deus não é uma licença para o pecado e nem uma autorização para uma vida sem dedicação ao Reino. Paulo deixa isso claro neste mesmo cap. 6 de Romanos, quando nos versos de 1 à 4 fala: "Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida."

Ser discípulo de Cristo implica numa vida de obediência a Ele, de observância e prática da Sua Palavra. "Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo." (Lc 14:33) e "...Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos." (Jó 8:31).

Como isso é possível sem a cruz? Não há hipótese de viver a vida de Cristo sem o sacrifício, a morte, da velha natureza terrivelmente inclinada ao pecado. Paulo tinha a verdadeira dimensão do que isso significa, sabendo ele que toda a glória deste mundo não pode ser comparada com aquilo que o Senhor reserva para aqueles que foram crucificados com Seu Filho: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo." (Gl 6:14).

O que parecia duto demais aos homens que ouviram o discurso de Jesus naquele dia, continua da mesma forma. O padrão não diminuiu. É preciso ser crucificado com Jesus, é necessário beber da vida de Cristo e andar como Ele andou.

"Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." (Gl 2:19-20).

A vida cristã tem uma coroa de glória no fim da jornada, mas no trilhar da mesma há uma cruz que não pode ser abandonada no caminho. Que não nos esqueçamos disso!

Fonte: estudosgospel

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quando os lobos atacam as ovelhas

Por Rev. Hernandes Dias Lopes
O apóstolo João, em sua segunda carta, versículos 7 a 11, fala acerca de três perigos que a igreja enfrenta em relação aos falsos mestres e enganadores, que como lobos, espreitam as ovelhas de Cristo. Os falsos mestres sempre existiram e sempre procuraram se infiltrar no meio do rebanho para atacar as ovelhas. Esses enganadores negam, por exemplo, as verdades essenciais da fé cristã, como a encarnação de Cristo e sua morte vicária na cruz. Eles têm o mesmo espírito do anticristo e vêm para preparar seu caminho (2Jo 7). Esses lobos nem sempre colocam as unhas de fora. Na maioria das vezes, travestem-se de ovelhas para entrar no aprisco e devorá-las. Que cautela a igreja precisa ter? Quais são os perigos que precisamos evitar para não sermos atacados por essa alcateia de lobos?

1. O perigo de tornar atrás (2 Jo 8). João alerta aos crentes para ficarem atentos a fim de não retrocederem e não perderem aquilo que foi realizado com esforço pelos verdadeiros obreiros de Deus. Quem retrocede na fé, quem escuta a voz dos falsos mestres e quem se afasta da igreja do Deus vivo para dar ouvidos às heresias perniciosas dos falsos mestres rifa sua própria alma no balcão do engano. O apóstolo João recomenda cautela, pois os falsos mestres não se apresentam como tal. Eles vêm com voz suave. São simpáticos, atraentes, bons comunicadores. Parecem sempre estar na frente, trazendo revelações novas e espetaculares. Mas, sorrateiramente ou mesmo explicitamente negam as verdades fundamentais da fé cristã e desconstroem os pilares do cristianismo. Seguir esses aventureiros é desviar-se da fé, é mergulhar na escuridão da mentira de Satanás e colocar os pés no caminho largo que conduz à perdição.

2. O perigo de ir além (2 Jo 9). Os falsos mestres sempre ficam aquém das Escrituras ou vão além delas. Eles ultrapassam a doutrina de Cristo. Não têm a Palavra de Deus como única regra de fé e prática. Acrescentam à Bíblia alguma nova revelação. Ao fazerem isso, negam a veracidade e a suficiência das Escrituras. Negam também a Pessoa e a obra perfeita e completa de Cristo. Negam a salvação pela graça e introduzem mentiras perniciosas, fazendo-as passar pela última verdade a que todos os homens devem se render. O apóstolo Paulo já havia alertado aos crentes da Galácia que ainda que um anjo de Deus viesse do céu para pregar outro evangelho, além daquele que foi pregado, deveria ser rejeitado veementemente. Só há um evangelho. Só há uma mensagem salvadora. Buscar outros caminhos, outras fontes e outras revelações é cair num abismo trevoso, é desviar-se da verdade, é apostatar-se da fé.

3. O perigo de ir junto (2 Jo 10,11). O apóstolo João é enfático em dizer que não podemos receber em nossa casa aqueles que trazem em sua bagagem a falsa doutrina, aqueles que negam nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo como nosso único e suficiente Salvador e Senhor. Não podemos dar as boas vindas a esses lobos travestidos de ovelhas, pois fazer isso é tornar-se cúmplice de suas obras más. Os falsos mestres são incansáveis em sua jornada de morte. Eles são itinerantes. Batem de porta em porta e buscam sempre uma oportunidade para enredar alguém com sua astúcia. A única forma de mantermos esses lobos fora do aprisco, longe das ovelhas e distante da nossa casa é firmarmo-nos na verdade. Sem o conhecimento das Escrituras, não teremos discernimento necessário para distinguir entre o lobo e a ovelha, entre a verdade e a mentira, entre o verdadeiro evangelho e o falso evangelho. Nesse tempo em que a sociedade organizada, por meio de suas mais respeitadas instituições, conspiram contra os valores espirituais e morais que devem reger a família. Nesse tempo em que florescem como cogumelo novas seitas bem como novas igrejas introduzindo novidades estranhas às Escrituras, arrebatando multidões aos seus redutos, precisamos nos acautelar e dar ouvidos à exortação do apóstolo João: Não torne atrás! Não vá além da doutrina! Não caminhe junto com os falsos mestres!

Fonte: Palavra da Verdade

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cartas às Sete Igrejas da Ásia – Pérgamo (Ap 2.12-17)

Por Pr. Nonato Souza
Pérgamo (moderna Bergama) era conhecida como uma cidade da província romana da Ásia distava cerca de 30 quilômetros da costa do mar Egeu, perto do rio Caico que era navegável por pequenas embarcações.

A cidade era localizada numa elevação de cerca de mil pés, servindo como fortaleza que dominava a zona rural. Desfrutou durante longo tempo de proeminência até que os romanos a invadissem e fizeram dela uma capital. “A verdadeira história da cidade começou no século III a. C., sob a dinastia dos Átalos, quando se tornou a capital de um reino Helenístico de considerável importância. Átalo III entregou seu reino a Roma em testamento. Em 133 a.C., por ocasião de sua morte, ela tornou-se a província da Ásia.” [1].

A cidade de Pérgamo era conhecida como centro religioso onde estava presente templo a Zeus e Asclépio (deus da cura) dentre outros. Após os romanos conquistarem a cidade, o templo por estes construído foi mais tarde, dedicado ao imperador Augusto de Roma, onde foi introduzido o culto a César. Pérgamo se tornou o centro do culto ao imperador, rivalizando até com Esmirna e Éfeso.

Dentre os muitos deuses de Pérgamo se destacava Zeus cujo templo se erguia numa colina 250 metros acima do nível da cidade e Asclépio, o deus da cura. Esses deuses eram tidos como salvadores (gr. soter). Os cristãos não reconheciam esse ensino e por isso eram ridicularizados pelos romanos e judeus. “Eram culpados de infidelidade a Roma, escarnecidos, acusados de sedição, perseguidos e assassinados” [2].

Kistemaker diz que em Pérgamo os cristãos enfrentavam as pressões de uma sociedade pagã. Quando convidados para participar de alguma festa a uma divindade pagã e recusavam de participar da mesma, eram evitados, perdiam o seu emprego ou negócio. Para os crentes, porém, não havia nada acima do seu Senhor, nenhuma lei humana que esteja acima da lei de Deus e nenhuma doutrina que suplante o evangelho [3].

“Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios” (v. 12).

Aos cristãos que habitavam em Pérgamo, Cristo descreveu-se como aquele que tem “a espada aguda de dois fios”. Certamente, identificando-se assim, Jesus se coloca em prontidão para batalhar e julgar toda heresia instalada na igreja de Pérgamo. Haviam hereges naquela igreja e para estes, Jesus se apresenta como aquele que tem a espada, símbolo da autoridade divina (Gn 3.24; Js 5.13), e referência à Escritura Sagrada (Hb 4.12). A Igreja recebe aqui uma advertência forte acerca do perigo de deixar os ensinos apostólicos e enveredar-se para erros doutrinários e heresias de perdição.

Jesus, também pode está se identificando desta forma, porque em Pérgamo, o procônsul que ali residia mantinha o poder da espada para determinar se uma pessoa devia viver ou morrer. Identificando-se, assim, Jesus se revela como o que tem o poder definitivo sobre a vida e a morte.

“Eu sei as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás” (v. 13).

O Senhor da igreja conhece as obras dos crentes, principalmente pelas circunstâncias do lugar onde estão habitando, assim elas se tornam bem mais conhecidas. Pérgamo, o lugar onde a igreja habitava era onde estava “o trono de Satanás”. O próprio Senhor reconhece isto. Estudiosos são da opinião de que essa expressão é uma referência ao altar de Zeus que era em si mesmo um símbolo da idolatria. Além de ser a cidade, o centro de culto a muitos deuses, se destacava principalmente pelo culto ao imperador que se tornou uma ameaça constante de aniquilação à existência da Igreja. Quando os crentes não aceitavam participar desses cultos eram tidos como traidores do Estado e consequentemente punidos severamente.

“e reténs o meu nome e não negastes a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita” (v. 13).

Mesmo habitando em lugar onde estava o “trono de Satanás”, os crentes residentes em Pérgamo, recusavam-se negar sua fé em Cristo. Quando as autoridades romanas bradavam: “César é Senhor”, eles respondiam veementemente: “Jesus é Senhor”. Firmeza e perseverança era a marca destes heróis cristãos.

Estes crentes viram ser ceifada a vida de uma fiel testemunha chamada Antipas entre eles. Não se sabe se Antipas era membro da igreja de Pérgamo ou se fora levado para ali como prisioneiro. Sabe-se que muitos prisioneiros eram trazidos de todas as partes da província de Pérgamo para serem julgados e condenados diante do procônsul da Ásia, que tinha o poder da vida e da morte.

“Mas umas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeço diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem” (v. 14).

É interessante observar que a crítica de Cristo à igreja de Pérgamo destina-se a uma parte dos membros. Ali estavam alguns membros que conservavam o Seu nome e não negaram a fé (v. 13). Jesus, o Cabeça da Igreja tem, porém, algumas coisas contra aquela igreja local. “Tens lá os que seguem a doutrina de Balaão”.

O texto veterotestamentário informa que Balaão era filho de Beor (estrangeiro), alguém que não pertencia ao povo. Vivia em Petor, na Mesopotâmia (Nm 22.5). Era tido como profeta de Deus, porém, na prática era um agoureiro e encantador (Nm 23.7;24.1). Entre os midianitas acabou tornando-se um adivinho (Nm 31.8), um mágico que buscava apenas os seus interesses pessoais e com habilidade estava sempre a manipular o que era sagrado.

Balaque rei de Moabe contrata os préstimos de Balaão para amaldiçoar Israel. As palavras de Balaão ao amaldiçoar o povo de Deus, surtiram efeito contrário. Percebendo não ter condições de amaldiçoar o povo, contratou as jovens formosas de Moabe e Midiã para seduzirem os jovens de Israel, levando-os a cometer imoralidade sexual. O falso ensino de Balaão levou o povo a desviar-se dos caminhos do Senhor levando-os à prática da “prostituição com as filhas de Moabe”.

Vendido a Balaque, o falso profeta Balaão passou a ensiná-lo “a lançar tropeço diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem” (Ap 2.14). Matthew Henry [4] enfatiza que alguns mestres da igreja de Pérgamo, ensinavam ser legítimo comer coisas sacrificadas a ídolos, e que a fornicação simples não era pecado. Ele faz algumas observações dignas de nota sobre o assunto:

1) A imundície do espírito e imundície da carne com freqüência andam juntas. Doutrinas corrompidas e a adoração corrompida com freqüência levam à conversa corrompida;
2) É bem legítimo associar o nome dos líderes de uma heresia aos que os seguem. É a forma mais rápida de identificá-los;
3) Continuar em comunhão com pessoas de princípios e práticas corrompidas é desagradável a Deus, atrai culpa e vergonha sobre toda a sociedade: eles se tornam participantes dos seus pecados. Embora a igreja, como tal, não tem poder para punir a pessoa dos homens, seja por heresia ou por imoralidade, com castigos corpóreos, ainda assim tem poder para excluí-los da sua comunhão; e, se não o fizer, Cristo, o cabeça e legislados da Igreja, vai está descontente com isso.

Balaão, então passou a ensinar Balaque a lançar “tropeço" (gr. scandalon) diante dos filhos de Israel. O termo está relacionado à armadilha, armada no caminho para seduzir Israel a cair no pecado. O povo de Deus foi enganado e caiu na armadilha. A consequência dessa armadilha foi a morte de cerca de 24 mil israelitas (Nm 25.9; 1Co 10.8).

Não resta dúvida, que alguns membros e mestres da igreja de Pérgamo, seguidores dos ensinos adotados por Balaão, os mais influentes, procuravam convencer os demais membros a aceitar os costumes pagãos para se livrarem das perseguições sofridas ao rejeitarem participar das celebrações pagãs do Estado. Certamente, esses mestres enfatizavam que aquilo que se faz com o corpo não afetará a alma, levando muitos a se afastarem da comunhão com o Senhor.

Muitos cristãos da igreja de Pérgamo haviam se deixado levar pelos ensinos heréticos de líderes ou cristão influentes para que agissem livremente com base em verdades reconhecidas de que os crentes não estão debaixo de nenhuma lei e que, portanto podem viver uma vida permissiva. O engano de Balaão estava sendo inserido dentro da igreja e minando a fé dos crentes, que se deixavam corromper sendo levados à adoração de ídolos e a prática da prostituição.

O erro de Balaão e Balaque parece ainda ameaçar a igreja atualmente. Estamos vendo uma busca constante dos evangélicos por fama. Estão buscando através da vocação religiosa caminhos que sejam mais curto para alcançar sucesso, glória pessoal, etc. Se deixam levar por uma motivação totalmente equivocada, onde a busca desenfreada por bens materiais é o que predomina o coração de muitos. Estão em busca de glória e louvor para si próprio. Estes que assim vivem “têm buscado sua própria projeção bem como das igrejas que comandam, construindo, assim, torres de Babel que dignificam o próprio nome de quem as constrói” [5].

“Assim, tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço” (v. 15).

Pesquisadores parecem indicar que os “nicolaítas” eram seguidores de Nicolau, o que fora escolhido para ser um dos diáconos da igreja (At 6.1-7). “Ao que tudo indica, Nicolau passou a elaborar, posteriormente, ensinamentos estranhos à fé cristã, procurando sincreticamente adaptar a doutrina dos apóstolos a práticas religiosas pagãs que incluíam, entre as suas cerimônias, a chamada prostituição sagrada” [6].

Esses seguidores de Nicolau, os nicolaítas, parecem ser pessoas que cometiam os mesmos pecados que os seguidores da doutrina de Balaão. Eles ensinavam os cristãos a se envolverem em imoralidades sexuais o que era proibido pela Palavra de Deus. Wander de Lara Proença diz sobre esses erros doutrinários: “Os principais erros da doutrina de Balaão e de Balaque significam, além de profanação da Palavra de Deus, seu uso indevido como magia e também a mistura do culto a ídolos com o culto ao Senhor. Pode-se entender magia como o esforço empreendido pelo ser humano de tentar constranger ou manipular os poderes divinos, a fim de servirem a interesses pessoais e utilitaristas” [7].

Os nicolaítas, que eram membros da igreja, são descritos no texto como aqueles que Cristo aborrece. E porque o texto dá ênfase a esse aborrecimento de Cristo? Certamente o fez porque esses cristãos fizeram concessões em sua vida de fé, para desfrutarem dos prazeres pecaminosos da sociedade.

Não temos o direito, como cristãos, de fazer concessões com as verdades do evangelho e doutrinas fundamentais da fé cristã, para simplesmente, satisfazer os nossos prazeres e deleites carnais. Aos tais que assim se comportam, estejam certos, Cristo não poderá tolerá-los.

Os evangélicos brasileiros, não obstante o seu crescimento nestas duas últimas décadas tem demonstrado muita fragilidade doutrinária em suas práticas devido à grande falta de embasamento bíblico e maturidade nas Escrituras Sagradas.

Os problemas mais frequentes notadamente observado tem sido a falta de formação daqueles que estão à frente de igrejas. Na maioria das vezes esses líderes são obreiros neófitos na fé, sem nenhuma formação teológica, que num piscar de olhos abrem igrejas, sem nenhum critério, e passam a ter seguidores, causando sérios transtornos à causa do Mestre.

Outro problema grave nas igrejas locais é o interesse pessoal em que estas tenham crescimento rápido e a qualquer custo. Para que isso aconteça, líderes deixam de ensinar a Palavra de Deus com aquele compromisso necessário e sério para adaptá-las aos interesses das pessoas, objetivando ver o crescimento astronômico do número de membro em suas congregações. Às apalpadelas vão empurrando com a barriga as coisas sem nenhum compromisso. A mensagem do evangelho é barateada e troca-se o direito da primogenitura pelos pratos de lentilhas (Gn 25.33,34). Eis um cuidado que precisamos ter.

O resultado desse comportamento é que não há mudança na vida das pessoas, pois não se cobra renúncia ao pecado e muito menos se exige compromisso com a Palavra de Deus. Prega-se um evangelho sem a cruz de Cristo, evangelho antropocêntrico, onde o homem é o centro de tudo e não Cristo.

Busca-se na atualidade um evangelho que proporcione às pessoas sucesso e prosperidade financeira. Um evangelho que não lhe custe nada, que não seja necessário renunciar nada ou abdicar de alguma coisa. Na verdade os que estão em busca deste evangelho, estão apenas querendo algo que lhes satisfaça e preencha o seu ego. Ora, esse não é o Evangelho de Cristo. O Evangelho Cristocêntrico, que segundo apóstolo Paulo é “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16), não busca interesses meramente pessoais, senão a glória de Deus sobre todas as coisas.

O que dissemos acima são erros cometidos na igreja dos dias atuais e que eram cometidos também na igreja de Pérgamo. Em muitos lugares o que se tem visto é um evangelho místico, sincrético, cheio de misturas e no mínimo estranho. “A Palavra de Deus tem se tornado, infelizmente, uma espécie de manual de rituais mágicos ou é utilizado como amuleto e fetiche” (Wander de Lara Proença). Precisamos parar com isso agora, ou estamos nós pensando que o Senhor Jesus, o dono da Igreja, irá tolerar por muito tempo essas coisas. Não será o tempo de buscar arrependimento?

“Arrepende-te, pois; quando não virei a ti e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (v. 16).

O Senhor exorta aos que viviam em práticas pecaminosas a se arrependerem. Exorta também a igreja a tratar com aqueles que faziam concessões onde não deveria haver concessões.

A igreja não deve tolerar a prática do pecado de maneira permissiva entre os seus membros. Só o arrependimento poderá evita o julgamento já prestes a chegar. É dever de todos se arrependerem antes que venha o castigo de Deus. A advertência de Jesus é séria: “quando não virei a ti e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (v. 16).

“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe” (v. 17).

Todos atualmente são exortados a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Os vencedores serão recompensados. O texto acima mostra três pontos importantes: comer do maná escondido, uma pedra branca e um novo nome.

Hernandes Dias Lopes [8] comenta sobre “comer do maná escondido”. “No deserto Deus mandou o maná (Ex 16.11-15). Quando cessou, um vaso com maná foi guardado na arca e depositado no templo (Êx 16. 33,34; Hb 9.4). Com a destruição do templo, conta uma lenda que Jeremias escondeu o vaso com maná numa fenda do Monte Sinai. Os rabinos diziam que ao vir o Messias, o vaso com maná seria recuperado. Receber o maná escondido significa desfrutar das bênçãos da era messiânica. O maná escondido refere-se ao banquete permanente que teremos no céu”.

Sobre a “pedra branca”, Beacon [9] apresenta algumas sugestões. Destas apresentaremos duas que são mais aceitas: 1) Uma pedra branca usada pelos jurados, significando absolvição do réu; 2) Um bilhete de admissão para a festa celestial ou messiânica.

Ainda sobre o novo nome observa Matthew Henry [10]: “O novo nome é o nome de adoção; pessoas adotadas tomaram o nome da família em que foram adotadas. Ninguém pode compreender a evidência da adoção de um homem a não ser ele mesmo; ele não pode compreendê-la, sempre, mas se ele perseverar terá a evidência tanto do ser filho quanto da herança”.

Quero concluir este artigo dizendo que precisamos priorizar o ensino sistemático da Palavra de Deus nas igrejas, investir mais em ensino de formação teológica, cursos de curta duração objetivando dar maior formação tanto a membros como obreiros que exercem lideranças para termos um ministério pastoral forte e produtivo. Só conseguiremos ter igreja amadurecidas no quesito Palavra de Deus se investirmos nessa área, e eu entendo que ainda é tempo.

Fomos chamados e estamos sendo trabalhado por Deus com objetivo de crescermos espiritualmente (Ef 4.11-12). Os falsos mestres dentro da igreja de Pérgamo influenciaram muitos a aceitarem heresias nocivas e de perdição, o que trouxe grande prejuízo para o Reino de Deus. Não será a nossa satisfação pessoal, o viver segundo a nossa vontade que nos trará a felicidade e a mudança tão esperada agora. Precisamos buscar a Deus sobre todas as coisas e sua Palavra como fonte a saciar nossa sede e como pão capaz de alimentar a nossa fome. Ir em busca de cisternas rotas não trará a solução para a dor que aflinge nossa alma. Deus é a solução. Entenda, só Deus através da sua Palavra, é a solução! A Palavra ensinada com seriedade e compromisso eliminará muitos desses males existentes na igreja hodierna. Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

Notas bibliográficas.

[1] Dicionário Bíblico Wycliffe, pg. 1511; CPAD
[2] Comentário do Novo Testamento – Apocalipse. Simon Kistemaker, pg. 172; Editora Cultura Cristã
[3] Idem
[4] Comentário Bíblico do Novo Testamento, Atos a Apocalipse. Matthew Henry, pg. 967. CPAD
[5] Uma Igreja Sem Propósitos. Jorge Henrique Barro, pg. 44. Editora Mundo Cristão.
[6] Idem, 59
[7] Idem, pg. 45
[8] Apocalipse, o futuro chegou. Hernandes Dias Lopes, pg.98. Hagnos.
[9] Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, pg. 419. CPAD.
[10] ] Comentário Bíblico do Novo Testamento, Atos a Apocalipse. Matthew Henry, pg. 967. CPAD.