terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cartas às Sete Igrejas da Ásia – Pérgamo (Ap 2.12-17)

Por Pr. Nonato Souza
Pérgamo (moderna Bergama) era conhecida como uma cidade da província romana da Ásia distava cerca de 30 quilômetros da costa do mar Egeu, perto do rio Caico que era navegável por pequenas embarcações.

A cidade era localizada numa elevação de cerca de mil pés, servindo como fortaleza que dominava a zona rural. Desfrutou durante longo tempo de proeminência até que os romanos a invadissem e fizeram dela uma capital. “A verdadeira história da cidade começou no século III a. C., sob a dinastia dos Átalos, quando se tornou a capital de um reino Helenístico de considerável importância. Átalo III entregou seu reino a Roma em testamento. Em 133 a.C., por ocasião de sua morte, ela tornou-se a província da Ásia.” [1].

A cidade de Pérgamo era conhecida como centro religioso onde estava presente templo a Zeus e Asclépio (deus da cura) dentre outros. Após os romanos conquistarem a cidade, o templo por estes construído foi mais tarde, dedicado ao imperador Augusto de Roma, onde foi introduzido o culto a César. Pérgamo se tornou o centro do culto ao imperador, rivalizando até com Esmirna e Éfeso.

Dentre os muitos deuses de Pérgamo se destacava Zeus cujo templo se erguia numa colina 250 metros acima do nível da cidade e Asclépio, o deus da cura. Esses deuses eram tidos como salvadores (gr. soter). Os cristãos não reconheciam esse ensino e por isso eram ridicularizados pelos romanos e judeus. “Eram culpados de infidelidade a Roma, escarnecidos, acusados de sedição, perseguidos e assassinados” [2].

Kistemaker diz que em Pérgamo os cristãos enfrentavam as pressões de uma sociedade pagã. Quando convidados para participar de alguma festa a uma divindade pagã e recusavam de participar da mesma, eram evitados, perdiam o seu emprego ou negócio. Para os crentes, porém, não havia nada acima do seu Senhor, nenhuma lei humana que esteja acima da lei de Deus e nenhuma doutrina que suplante o evangelho [3].

“Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios” (v. 12).

Aos cristãos que habitavam em Pérgamo, Cristo descreveu-se como aquele que tem “a espada aguda de dois fios”. Certamente, identificando-se assim, Jesus se coloca em prontidão para batalhar e julgar toda heresia instalada na igreja de Pérgamo. Haviam hereges naquela igreja e para estes, Jesus se apresenta como aquele que tem a espada, símbolo da autoridade divina (Gn 3.24; Js 5.13), e referência à Escritura Sagrada (Hb 4.12). A Igreja recebe aqui uma advertência forte acerca do perigo de deixar os ensinos apostólicos e enveredar-se para erros doutrinários e heresias de perdição.

Jesus, também pode está se identificando desta forma, porque em Pérgamo, o procônsul que ali residia mantinha o poder da espada para determinar se uma pessoa devia viver ou morrer. Identificando-se, assim, Jesus se revela como o que tem o poder definitivo sobre a vida e a morte.

“Eu sei as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás” (v. 13).

O Senhor da igreja conhece as obras dos crentes, principalmente pelas circunstâncias do lugar onde estão habitando, assim elas se tornam bem mais conhecidas. Pérgamo, o lugar onde a igreja habitava era onde estava “o trono de Satanás”. O próprio Senhor reconhece isto. Estudiosos são da opinião de que essa expressão é uma referência ao altar de Zeus que era em si mesmo um símbolo da idolatria. Além de ser a cidade, o centro de culto a muitos deuses, se destacava principalmente pelo culto ao imperador que se tornou uma ameaça constante de aniquilação à existência da Igreja. Quando os crentes não aceitavam participar desses cultos eram tidos como traidores do Estado e consequentemente punidos severamente.

“e reténs o meu nome e não negastes a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita” (v. 13).

Mesmo habitando em lugar onde estava o “trono de Satanás”, os crentes residentes em Pérgamo, recusavam-se negar sua fé em Cristo. Quando as autoridades romanas bradavam: “César é Senhor”, eles respondiam veementemente: “Jesus é Senhor”. Firmeza e perseverança era a marca destes heróis cristãos.

Estes crentes viram ser ceifada a vida de uma fiel testemunha chamada Antipas entre eles. Não se sabe se Antipas era membro da igreja de Pérgamo ou se fora levado para ali como prisioneiro. Sabe-se que muitos prisioneiros eram trazidos de todas as partes da província de Pérgamo para serem julgados e condenados diante do procônsul da Ásia, que tinha o poder da vida e da morte.

“Mas umas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeço diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem” (v. 14).

É interessante observar que a crítica de Cristo à igreja de Pérgamo destina-se a uma parte dos membros. Ali estavam alguns membros que conservavam o Seu nome e não negaram a fé (v. 13). Jesus, o Cabeça da Igreja tem, porém, algumas coisas contra aquela igreja local. “Tens lá os que seguem a doutrina de Balaão”.

O texto veterotestamentário informa que Balaão era filho de Beor (estrangeiro), alguém que não pertencia ao povo. Vivia em Petor, na Mesopotâmia (Nm 22.5). Era tido como profeta de Deus, porém, na prática era um agoureiro e encantador (Nm 23.7;24.1). Entre os midianitas acabou tornando-se um adivinho (Nm 31.8), um mágico que buscava apenas os seus interesses pessoais e com habilidade estava sempre a manipular o que era sagrado.

Balaque rei de Moabe contrata os préstimos de Balaão para amaldiçoar Israel. As palavras de Balaão ao amaldiçoar o povo de Deus, surtiram efeito contrário. Percebendo não ter condições de amaldiçoar o povo, contratou as jovens formosas de Moabe e Midiã para seduzirem os jovens de Israel, levando-os a cometer imoralidade sexual. O falso ensino de Balaão levou o povo a desviar-se dos caminhos do Senhor levando-os à prática da “prostituição com as filhas de Moabe”.

Vendido a Balaque, o falso profeta Balaão passou a ensiná-lo “a lançar tropeço diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem” (Ap 2.14). Matthew Henry [4] enfatiza que alguns mestres da igreja de Pérgamo, ensinavam ser legítimo comer coisas sacrificadas a ídolos, e que a fornicação simples não era pecado. Ele faz algumas observações dignas de nota sobre o assunto:

1) A imundície do espírito e imundície da carne com freqüência andam juntas. Doutrinas corrompidas e a adoração corrompida com freqüência levam à conversa corrompida;
2) É bem legítimo associar o nome dos líderes de uma heresia aos que os seguem. É a forma mais rápida de identificá-los;
3) Continuar em comunhão com pessoas de princípios e práticas corrompidas é desagradável a Deus, atrai culpa e vergonha sobre toda a sociedade: eles se tornam participantes dos seus pecados. Embora a igreja, como tal, não tem poder para punir a pessoa dos homens, seja por heresia ou por imoralidade, com castigos corpóreos, ainda assim tem poder para excluí-los da sua comunhão; e, se não o fizer, Cristo, o cabeça e legislados da Igreja, vai está descontente com isso.

Balaão, então passou a ensinar Balaque a lançar “tropeço" (gr. scandalon) diante dos filhos de Israel. O termo está relacionado à armadilha, armada no caminho para seduzir Israel a cair no pecado. O povo de Deus foi enganado e caiu na armadilha. A consequência dessa armadilha foi a morte de cerca de 24 mil israelitas (Nm 25.9; 1Co 10.8).

Não resta dúvida, que alguns membros e mestres da igreja de Pérgamo, seguidores dos ensinos adotados por Balaão, os mais influentes, procuravam convencer os demais membros a aceitar os costumes pagãos para se livrarem das perseguições sofridas ao rejeitarem participar das celebrações pagãs do Estado. Certamente, esses mestres enfatizavam que aquilo que se faz com o corpo não afetará a alma, levando muitos a se afastarem da comunhão com o Senhor.

Muitos cristãos da igreja de Pérgamo haviam se deixado levar pelos ensinos heréticos de líderes ou cristão influentes para que agissem livremente com base em verdades reconhecidas de que os crentes não estão debaixo de nenhuma lei e que, portanto podem viver uma vida permissiva. O engano de Balaão estava sendo inserido dentro da igreja e minando a fé dos crentes, que se deixavam corromper sendo levados à adoração de ídolos e a prática da prostituição.

O erro de Balaão e Balaque parece ainda ameaçar a igreja atualmente. Estamos vendo uma busca constante dos evangélicos por fama. Estão buscando através da vocação religiosa caminhos que sejam mais curto para alcançar sucesso, glória pessoal, etc. Se deixam levar por uma motivação totalmente equivocada, onde a busca desenfreada por bens materiais é o que predomina o coração de muitos. Estão em busca de glória e louvor para si próprio. Estes que assim vivem “têm buscado sua própria projeção bem como das igrejas que comandam, construindo, assim, torres de Babel que dignificam o próprio nome de quem as constrói” [5].

“Assim, tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço” (v. 15).

Pesquisadores parecem indicar que os “nicolaítas” eram seguidores de Nicolau, o que fora escolhido para ser um dos diáconos da igreja (At 6.1-7). “Ao que tudo indica, Nicolau passou a elaborar, posteriormente, ensinamentos estranhos à fé cristã, procurando sincreticamente adaptar a doutrina dos apóstolos a práticas religiosas pagãs que incluíam, entre as suas cerimônias, a chamada prostituição sagrada” [6].

Esses seguidores de Nicolau, os nicolaítas, parecem ser pessoas que cometiam os mesmos pecados que os seguidores da doutrina de Balaão. Eles ensinavam os cristãos a se envolverem em imoralidades sexuais o que era proibido pela Palavra de Deus. Wander de Lara Proença diz sobre esses erros doutrinários: “Os principais erros da doutrina de Balaão e de Balaque significam, além de profanação da Palavra de Deus, seu uso indevido como magia e também a mistura do culto a ídolos com o culto ao Senhor. Pode-se entender magia como o esforço empreendido pelo ser humano de tentar constranger ou manipular os poderes divinos, a fim de servirem a interesses pessoais e utilitaristas” [7].

Os nicolaítas, que eram membros da igreja, são descritos no texto como aqueles que Cristo aborrece. E porque o texto dá ênfase a esse aborrecimento de Cristo? Certamente o fez porque esses cristãos fizeram concessões em sua vida de fé, para desfrutarem dos prazeres pecaminosos da sociedade.

Não temos o direito, como cristãos, de fazer concessões com as verdades do evangelho e doutrinas fundamentais da fé cristã, para simplesmente, satisfazer os nossos prazeres e deleites carnais. Aos tais que assim se comportam, estejam certos, Cristo não poderá tolerá-los.

Os evangélicos brasileiros, não obstante o seu crescimento nestas duas últimas décadas tem demonstrado muita fragilidade doutrinária em suas práticas devido à grande falta de embasamento bíblico e maturidade nas Escrituras Sagradas.

Os problemas mais frequentes notadamente observado tem sido a falta de formação daqueles que estão à frente de igrejas. Na maioria das vezes esses líderes são obreiros neófitos na fé, sem nenhuma formação teológica, que num piscar de olhos abrem igrejas, sem nenhum critério, e passam a ter seguidores, causando sérios transtornos à causa do Mestre.

Outro problema grave nas igrejas locais é o interesse pessoal em que estas tenham crescimento rápido e a qualquer custo. Para que isso aconteça, líderes deixam de ensinar a Palavra de Deus com aquele compromisso necessário e sério para adaptá-las aos interesses das pessoas, objetivando ver o crescimento astronômico do número de membro em suas congregações. Às apalpadelas vão empurrando com a barriga as coisas sem nenhum compromisso. A mensagem do evangelho é barateada e troca-se o direito da primogenitura pelos pratos de lentilhas (Gn 25.33,34). Eis um cuidado que precisamos ter.

O resultado desse comportamento é que não há mudança na vida das pessoas, pois não se cobra renúncia ao pecado e muito menos se exige compromisso com a Palavra de Deus. Prega-se um evangelho sem a cruz de Cristo, evangelho antropocêntrico, onde o homem é o centro de tudo e não Cristo.

Busca-se na atualidade um evangelho que proporcione às pessoas sucesso e prosperidade financeira. Um evangelho que não lhe custe nada, que não seja necessário renunciar nada ou abdicar de alguma coisa. Na verdade os que estão em busca deste evangelho, estão apenas querendo algo que lhes satisfaça e preencha o seu ego. Ora, esse não é o Evangelho de Cristo. O Evangelho Cristocêntrico, que segundo apóstolo Paulo é “o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16), não busca interesses meramente pessoais, senão a glória de Deus sobre todas as coisas.

O que dissemos acima são erros cometidos na igreja dos dias atuais e que eram cometidos também na igreja de Pérgamo. Em muitos lugares o que se tem visto é um evangelho místico, sincrético, cheio de misturas e no mínimo estranho. “A Palavra de Deus tem se tornado, infelizmente, uma espécie de manual de rituais mágicos ou é utilizado como amuleto e fetiche” (Wander de Lara Proença). Precisamos parar com isso agora, ou estamos nós pensando que o Senhor Jesus, o dono da Igreja, irá tolerar por muito tempo essas coisas. Não será o tempo de buscar arrependimento?

“Arrepende-te, pois; quando não virei a ti e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (v. 16).

O Senhor exorta aos que viviam em práticas pecaminosas a se arrependerem. Exorta também a igreja a tratar com aqueles que faziam concessões onde não deveria haver concessões.

A igreja não deve tolerar a prática do pecado de maneira permissiva entre os seus membros. Só o arrependimento poderá evita o julgamento já prestes a chegar. É dever de todos se arrependerem antes que venha o castigo de Deus. A advertência de Jesus é séria: “quando não virei a ti e contra eles batalharei com a espada da minha boca” (v. 16).

“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe” (v. 17).

Todos atualmente são exortados a ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Os vencedores serão recompensados. O texto acima mostra três pontos importantes: comer do maná escondido, uma pedra branca e um novo nome.

Hernandes Dias Lopes [8] comenta sobre “comer do maná escondido”. “No deserto Deus mandou o maná (Ex 16.11-15). Quando cessou, um vaso com maná foi guardado na arca e depositado no templo (Êx 16. 33,34; Hb 9.4). Com a destruição do templo, conta uma lenda que Jeremias escondeu o vaso com maná numa fenda do Monte Sinai. Os rabinos diziam que ao vir o Messias, o vaso com maná seria recuperado. Receber o maná escondido significa desfrutar das bênçãos da era messiânica. O maná escondido refere-se ao banquete permanente que teremos no céu”.

Sobre a “pedra branca”, Beacon [9] apresenta algumas sugestões. Destas apresentaremos duas que são mais aceitas: 1) Uma pedra branca usada pelos jurados, significando absolvição do réu; 2) Um bilhete de admissão para a festa celestial ou messiânica.

Ainda sobre o novo nome observa Matthew Henry [10]: “O novo nome é o nome de adoção; pessoas adotadas tomaram o nome da família em que foram adotadas. Ninguém pode compreender a evidência da adoção de um homem a não ser ele mesmo; ele não pode compreendê-la, sempre, mas se ele perseverar terá a evidência tanto do ser filho quanto da herança”.

Quero concluir este artigo dizendo que precisamos priorizar o ensino sistemático da Palavra de Deus nas igrejas, investir mais em ensino de formação teológica, cursos de curta duração objetivando dar maior formação tanto a membros como obreiros que exercem lideranças para termos um ministério pastoral forte e produtivo. Só conseguiremos ter igreja amadurecidas no quesito Palavra de Deus se investirmos nessa área, e eu entendo que ainda é tempo.

Fomos chamados e estamos sendo trabalhado por Deus com objetivo de crescermos espiritualmente (Ef 4.11-12). Os falsos mestres dentro da igreja de Pérgamo influenciaram muitos a aceitarem heresias nocivas e de perdição, o que trouxe grande prejuízo para o Reino de Deus. Não será a nossa satisfação pessoal, o viver segundo a nossa vontade que nos trará a felicidade e a mudança tão esperada agora. Precisamos buscar a Deus sobre todas as coisas e sua Palavra como fonte a saciar nossa sede e como pão capaz de alimentar a nossa fome. Ir em busca de cisternas rotas não trará a solução para a dor que aflinge nossa alma. Deus é a solução. Entenda, só Deus através da sua Palavra, é a solução! A Palavra ensinada com seriedade e compromisso eliminará muitos desses males existentes na igreja hodierna. Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

Notas bibliográficas.

[1] Dicionário Bíblico Wycliffe, pg. 1511; CPAD
[2] Comentário do Novo Testamento – Apocalipse. Simon Kistemaker, pg. 172; Editora Cultura Cristã
[3] Idem
[4] Comentário Bíblico do Novo Testamento, Atos a Apocalipse. Matthew Henry, pg. 967. CPAD
[5] Uma Igreja Sem Propósitos. Jorge Henrique Barro, pg. 44. Editora Mundo Cristão.
[6] Idem, 59
[7] Idem, pg. 45
[8] Apocalipse, o futuro chegou. Hernandes Dias Lopes, pg.98. Hagnos.
[9] Comentário Bíblico Beacon, Hebreus a Apocalipse, pg. 419. CPAD.
[10] ] Comentário Bíblico do Novo Testamento, Atos a Apocalipse. Matthew Henry, pg. 967. CPAD.

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